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Elzevir surgiu com seu mirabolante visual cortês e agitou um leque pintado com uma paisagem campestre enquanto caminhava pela fortaleza. Não demoraria a acontecer o inevitável: sua fortaleza anunciaria a chegada do guardião. Tinha certeza disso, assim como tinha certeza que podia fazer uma roupa de cascas de banana. O que o preocupava não era receber Su Won, mas Giovanna surgir do nada diante deles. Certas coisas funcionavam melhor numa ordem e Su Won vendo a Gnóstis agora era desnecessário assim como um traje feito de cascas de fruta.
— Vamos reorganizar um pouco os ambientes — sorriu e moveu seu leque para criar um ambiente sobreposto ao outro, duplicando a nave central da fortaleza. Em seguida fez a original ficar invisível para assim que Gio entrasse tivesse tempo de sentir a presença do guardião e sair dali. Poliphilo já a teria alertado. De qualquer maneira aquele era seu território e teria de fazer valer seu poder retendo Su Won o maior tempo possível.
Suspirou ao sentir o tinir das aldrabas do portão principal da fortaleza. Fechou seu leque com um gesto firme em oposição a grandiosa entrada que se abriu para deixar passar a escura silhueta de Su Won, seguida de seu oposto pálido e diáfano. Elzevir sentiu uma ponta de tristeza ao ver aquele delicado rosto que se aproximava sempre em busca de justiça.
— Saudações, Alfarrabista, Senhor da Fortaleza do Domo. Eu, Su Won, o Guardião, me apresento diante de ti. — Parou e com uma reverência educada curvou-se um pouco com o punho repousando na ponta da guarda de sua bela espada.
— Saudações, Alfarrabista. Eu, Fades, me apresento diante de ti. — Curvou-se num gesto gracioso e recebeu o sorriso de Elzevir em retribuição.
— Pequena Fades, é muito bem-vinda. — Olhou para Su Won que o observava com seus olhos amendoados e escuros como o mais puro nanquim. — Isso também vale para você. — Aproximou-se e deu um piparote com o leque no ombro dele.
— Elzevir, nós temos um incidente na Fortaleza dos Esquecidos. Acredito que Fades pode ter se encontrado com um indivíduo que sabe onde está Poliphilo.
— Um indivíduo? - Fingiu surpresa.
— Ele levou um Sumidouro. — Fades informou com urgência.
— Deverás!? — Agora seu interesse era puramente genuíno — Como teria feito isso? Temos outro biblios que pode manusear os Sumidouros?
— Me parece que suas habilidades não se resumem apenas a isso… — Su Won começou a observar o ambiente cuidadosamente. Havia algo ali.
De fato, Giovanna surgira há poucos segundos no recinto onde vira Salomon a primeira vez e agora espiava pela fresta da porta. Então o guardião viera até a fortaleza e aquele não era um lugar tão bom para ficar no momento. Aquele biblios parecia vasculhar tudo milimetricamente com seu olhar e apostou que não demoraria a detectar sua Gnósis. Elzevir parecia ter duplicado o ambiente para criar uma barreira, pois ela os via como se houvesse um véu.
— Ela parece não ser afetada pelo meu poder de parar o tempo até para um biblios. Não pude impedir sua saída da fortaleza. — Continuava a buscar com o olhar algo impalpável.
— Poder muito útil para suas tarefas. — Elzevir moveu o leque por cima do ombro como se espantasse um inseto imaginário, mas Gio percebeu a deixa de sair dali. Ele sabia de sua presença já que sua cortina de fumaça era para os outros.
— Ela pode saber onde está Poliphilo. Não pode acobertar um criminoso! - Fades disparou aquela frase com o ímpeto de quem estava finalmente respirando depois de muito prender o ar. Elzevir a olhou por alguns segundos, muito mais preocupado com o que Gio acabara de ouvir do que com as impressões de Su Won sobre o ambiente.
Um criminoso!?
A palavra reverberou na mente de Gio como o impacto de um tiro na testa. De todas as informações a que havia tido acesso em tão pouco tempo, aquilo era algo que ela nunca imaginou que ouviria. Deu um passo para trás e fechou a porta devagar.
— Esta sala tem duas camadas. — Su Won se moveu com tal velocidade que até o alfarrabista ficou surpreso. Sua espada deslizou para fora da bainha, cortando o ar e fazendo a camada duplicada de Elzevir desmontar-se como um véu que cai. Apesar de inesperado não foi o suficiente para permitir que ele fizesse um segundo movimento, pois Elzevir fez a espada parar no ar como se tivesse batido um sólido escudo criado pelo seu Gnósis.
— Não é educado desembainhar sua espada aqui, Su Won. — Já não havia frivolidade nas palavras de Elzevir e seus olhos brilhavam como se um sol pulsasse dentro deles. A espada moveu-se devagar, voltando para a bainha e o belo norigae de jade branco reverberou um reflexo brilhante, numa resposta sútil. Fades deu um passo para trás um tanto surpresa com o impacto das Gnósis de ambos, mesmo que contidas.
— Acredito que sabe de quem se trata. Não é um segredo que sempre protegeu Poliphilo — declarou num tom frio.
— Você também o acompanhou por muito tempo. Deveria conhecê-lo melhor que ninguém.
— Não impede que eu cumpra meu dever. Eu devo capturá-lo. — Deu um passo adiante, mas Elzevir moveu seu leque num gesto de bloqueio.
— Não há nada para ver aqui.
Su Won o observou em silêncio. Fades pensou em falar algo, mas ele moveu sua mão para que a jovem não continuasse. Fez um leve gesto com a cabeça, despedindo-se e virou-se, seguido da mesma.
— Tenho certeza de que o Conselho vai se interessar por este assunto.
— Com certeza. Se eu estiver no assunto, ele será interessante. — Elzevir sorriu e o guardião parou, fitando o ambiente uma última vez.
— Eu não sei quem essa pessoa é, mas eu estarei esperando por ela da próxima vez que colocar os pés na Fortaleza dos Esquecidos. — Finalmente caminhou num passo resoluto. Fades o seguiu depois de olhar para Elzevir com a expressão aborrecida.
— Oh, Céus! Fades já a viu. — Caminhou para o local onde Gio estivera minutos antes e lhe pareceu óbvio encontrar o recinto vazio. O Sumidouro também não estava lá. — Claro. É justo que volte para casa. — Fechou a porta. Gio voltaria em breve. Disso tinha certeza, mas agora tinha outras providências a tomar.
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O Sumidouro ainda estava entre suas mãos. Desde o momento em que o tocara não o havia largado mais. Nunca tivera certeza de poder retê-lo por tanto tempo, mas ele ainda se encontrava sólido diante dela. Contudo não sabia se o estado permaneceria alterado ao soltá-lo. Sumidouros ficavam apenas onde eram deixados; esse era o único poder que um necromon tinha sobre um objeto criado. Para todo o resto não havia nada que pudessem reter. Gio lembrou-se da concha que o pequeno visitante lhe trouxera. Era algo que ele pegara e, como deveria ser, voltou para seu ponto de origem. Mas e este livro? Ela teria o poder de reter? Se o soltasse poderia usar sua Gnósis para mantê-lo ali? Depois de lê-lo o devolveria para a fortaleza? Poliphilo era um criminoso?
Aquele pensamento cruzava sua mente a cada segundo. Agora parecia que a todo o momento aquela informação bombardeava seus pensamentos e pulsava em seu corpo no ritmo das batidas cardíacas.
Um criminoso? Que crime ele cometeu?
Poliphilo lhe falara algo sobre destruição de livros. Ele fizera isso? Por quê? Uma angústia havia tomado conta dela desde que fechara a porta da biblioteca e voltara para sua casa. Agora, sentada em seu quarto, precisava botar as ideias em ordem.
Valia a pena continuar?
Poderia desistir de tudo, mas então se lembrou de Nômade e tudo que havia visto. Olhou para o livro diante dela, repousado em sua cama e seguro em suas mãos como um tesouro estranho e gasto. Deslizou os dedos sentido a textura rústica e pensou em tantos e tantos livros como aquele que estavam naquela fortaleza. Alguém que havia cuidadosamente recolhido todos aqueles livros e procurado pelo lendário Gnóstis agora era apenas um criminoso? Haveria mais para acreditar, como havia sempre mais pra ler naqueles livros? O que viu dentro do Grimoire de Poliphilo não podia ser manipulado e enquanto olhava para aquele velho Sumidouro, decidiu que não podia julgar antes de ver tudo, de ler tudo.
Estava sozinha e não havia avisado Nina de sua chegada. Queria e precisava estar só para fazer aquilo.
— Acho que agora tenho de ler você, mas preciso que fique aqui. — Fechou um pouco os olhos e sentiu a energia de sua Gnósis deslizar entre seus dedos e envolver o livro como uma egrégora, retendo-o. Soltou-o cuidadosamente e sentiu um enorme alívio ao notar que o exemplar parecia sólido e imóvel. Suas mãos estavam frias e um nervosismo quase infantil a tomou. Já lera um Grimoire, mas nunca um Sumidouro. No primeiro encontrou maravilhas, então o que encontraria num livro tão velho com um passado que ela não conhecia?
Temeu pelo que poderia ver. O que havia escapado do livro lhe gelara o sangue. Aquilo era o som do que Nômade definira como Vazio? Ajeitou os óculos tentando relaxar. Um delicado movimento abriu o antigo exemplar e houve certa decepção ao ver apenas papel antigo em seu interior. É lógico que deveria ter pensado nisso; não haveria a energia pulsante e desperta como o que vira num Grimoire. Ficou pensando em como ler aquilo.
Inesperadamente o livro pareceu ficar translúcido e a egrégora começou a se desmanchar. Gio entrou em pânico.
— Não, não, não, não! - Segurou-o com firmeza e ele pareceu solidificar-se de novo. — Ah! Como assim? Como vou lê-lo se não fica comigo aqui? — reclamou num desabafo. — Como vou mantê-lo seguro?
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“Você pode guardar o Grimoire dentro de uma memória.”
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Quase podia ouvir Poliphilo dizer aquilo, mas ele não estava lá. Seria o Grimoire dele lhe falando? Uma clareza súbita a tomou e sorriu esperançosa.
— Ok. Eu sei onde posso guardá-lo e você pode ficar. Vamos tentar. — Moveu sua mão e viu o Sumidouro desaparecer para ser colocado dentro daquele mesmo quarto, mas há muitos anos atrás. Concentrou-se naquela lembrança e viu-se sentada na poltrona próxima do antigo armário que guardava o Grimoire de Poliphilo. Em seu colo o Sumidouro repousava silenciosamente.
Estava agora em seu próprio Imaginarium. Nômade podia criar um espaço entre camadas e Gio finalmente entendera que cada lembrança também era uma camada que podia ser materializada com sua Gnósis. Começava a entender as regras daquele mundo sem regras. Elzevir estava certo; não existia diferença.
Apenas era um lugar de existir.
Observou o livro e tocou-o com gentileza. Para sua surpresa sentiu um leve pulsar que a avisou que estava pronto para mostrar o que quer que existisse ali dentro. A capa moveu-se para revelar algo como uma folha feita em névoa. Os olhos focaram naquele estranho fenômeno e ousou mergulhar dentro daquela cortina de fumaça. Em poucos segundos sentia como se estivesse caminhando num infinito campo coberto de neblina onde nada podia ser visto, apenas aquela névoa ao seu redor ondulava como um mar antigo e esquecido. Os pés sumiam imersos, por mais que focasse, e só podia ver parte de si mesma. Olhou suas mãos que começaram a ficar frias. Uma luz muito distante mostrava-se timidamente num horizonte incerto e Gio sentiu urgência em correr até lá, mas a cada passo seu corpo parecia esfriar e aos poucos uma sensação de medo e urgência se misturava a sua vontade.
— Este medo e urgência não são meus! Isso é apenas lembrança! — Sacudiu a cabeça numa recusa de aceitar aquilo como sendo parte de si. — Me mostre mais! Deixe-me lê-lo! - Pediu quase gritando para a diáfana fonte de luz oculta no nevoeiro. A fonte iniciou um pulsar que a fez lembrar como um farol perdido num profundo nevoeiro no oceano. Continuou a caminhar, agora se abraçando para espantar o frio e não demorou a ouvir murmúrios distantes que falavam frases ou palavras ininteligíveis. Olhava ao redor, mas não via nada. Não demorou a compreender que assim como aquele guincho horrível, esses sons deveriam ser do passado, provavelmente dos necromons que haviam feito o livro. Avançava gradativamente e pode perceber que a luz tênue parecia maior, mas ainda submersa em névoa e gradativamente um vento desolador parecia movimentar-se prestes a engolfá-la como um tornado o faria. Era tão forte que teve de parar, repensando sua jornada.
“O que está acontecendo? A cada passo sinto como se o ambiente ficasse cada vez mais hostil. Como se não quisesse deixar-me chegar até aquele ponto. O que estou fazendo de errado?”
Olhou para aquela luz distante e lhe ocorreu que aquele era o Gnósis a ser lido. Os necromons faziam Sumidouros para se proteger de um predador, algo que absorvia a Gnósis, então isto que estava vendo era a essência do Sumidouro, sua finalidade. Mesmo já tendo sido usado, ainda repetia seu modus operandi, mas agora para proteger o Gnósis mais oculto, contudo ela não era uma ameaça. Devia fazer o livro entender aquilo.
Estendeu suas mãos em meio ao vendaval e iniciou por emanar seu próprio Gnósis, criando um vértice ao redor de si, assim como havia feito ao usar o poder do Grimoire de Poliphilo para locomover-se. Agora deveria usar o seu próprio poder, pois só um Gnóstis poderia acessar aquela leitura e o antigo exemplar precisava reconhecer quem estava ali.
À medida que seu vértice girava num campo cada vez mais amplo, caracteres luminosos e símbolos, assim como formas e cores se mesclavam em harmonia criando um fenômeno de grande beleza, em oposição à ventania ao redor, que principiou por silenciar-se até que apenas a névoa permaneceu inerte, como no início. Fez sua Gnósis parar delicadamente, sustentando apenas aquela grande massa de energia que se manteve ao redor dela como uma imensa nebulosa criativa. Era um belo espetáculo visual e sentiu-se encantada por perceber-se capaz de criar aquilo. A nebulosa multicolorida pulsava suavemente como se estivesse viva com infinitos pontos de luz que ganhavam e perdiam formas como estrelas que nasciam e desapareciam o tempo todo, numa dança delicada de vagalumes cósmicos. Havia uma grande tranquilidade e conforto em estar suspensa dentro daquele espaço de energia. Cuidadosamente estendeu a mão na direção da luz
“ Eu sou a Gnóstis. Por favor, deixe-me lê-lo.”
A resposta foi mais que inesperada.
Aquela luminescência pulsou com a força de uma supernova e veio em sua direção com tal ímpeto que Gio se sentiu impactada ao ter seu corpo atingido em pleno ar e mergulhado numa imensa explosão luminosa. Uma sensação de paralisia a tomou e teve de fechar os olhos nos primeiros segundos para só depois poder acostumar-se à claridade.
Luz, muita luz por toda parte. Nem névoa, nem ventos. Apenas luz e um sentimento tão concentrado que ela teve de fechar os olhos quando sentiu lágrimas descerem pela sua face.
“Esperança!”
Era toda a tradução para aquela energia pura que havia sido atraída para ela.
Por trás de toda escuridão, todo medo e solidão, era aquilo que pulsava com a força da sobrevivência dos necromons.
Esperança.
Era aquilo que estava guardado no mais profundo do âmago de um velho livro Sumidouro.
Aquela era a pérola que Gio havia imaginado.
Ela existia e era profundamente bela.
Gio sorriu grata e finalmente estava pronta para voltar.
Fechou os olhos e quando os abriu novamente, tocou a capa do velho livro e carinhosamente colocou-o sobre a poltrona, ao se levantar. Agora sabia o que havia dentro daquele livro e precisava buscar as outras respostas que lhe faltavam. Enquanto isso aquele Sumidouro ficaria guardado em sua memória, tão precioso quanto um Grimoire.
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Nina acordava sempre bem cedo para cuidar do jardim. As hortaliças gostavam de água e eram diligentemente atendidas em suas necessidades. Antes mesmo de tomar café, trocava de roupa e descia para cuidar do jardim, mas hoje precisava saber de Gio. Desde a mensagem que lhe enviara não a havia mais visto até o fim do dia. Era certo que o tempo corria de forma diferente aonde deveria estar, por isso não estranhou as horas silenciosas e apenas desejou secretamente que a irmã estivesse segura.
Caminhou até o quarto dela e abriu cuidadosamente a porta. Para sua surpresa encontrou Gio esparramada na cama, dormindo com o rosto enterrado no travesseiro e uma mancha de baba seca no rosto.
— Eca. Que heroína é essa? — murmurou com certo alívio e aproximou-se para tocar em seu ombro. — Gio, tá viva?
As pálpebras se moveram lentamente e os óculos dependurados de forma precária finalmente caíram sendo amparados pela irmã. Num segundo percebeu que realmente estava em seu quarto e caíra em profundo sono. Ergueu a cabeça tão rápido que sentiu a fisgada de um torcicolo.
— Aaaiii! — Olhou para Nina que a observava pacientemente. — Que dia hoje? Horas?
— Hoje é domingo e você saiu daqui ontem, no final da manhã. Quanto tempo se passou em Imaginarium?
— Não muito tempo, mas muitas coisas aconteceram. Eu voltei ontem mesmo, mas acho que apaguei. Não me lembro de voltar. Estava bem esgotada.
— Quando eu chequei ontem de noite não estava aqui e não havia mensagem no celular. Fiquei preocupada.
— O Sumidouro… acho que ele muda o tempo. Não parecia tanto… — falou sozinha — …, mas acho que ele absorve o tempo também. Deve fazer parte da sua estrutura de proteção.
— Você leu um Sumidouro? — Sentou-se no chão e cruzou os braços.
— Li. — Sorriu um pouco. — Foi tudo bem, mas acho que foi isso que tomou meu tempo. Eu voltei aqui e ainda era claro, mas depois de lê-lo… não me lembro do resto.
— Sugou sua lembrança? — Preocupou-se. — Sabe meu nome?
— Gianina! — Fez um muxoxo e depois olhou ao redor. — Se não me viu eu realmente criei uma camada dentro da minha lembrança e estava lá, mas ler o Sumidouro deve ter acelerado o tempo. Então mesmo para um Gnóstis pode haver um efeito colateral. Não foi como se eu perdesse a memória. Lembro-me de tudo, mas ao voltar devo ter dormido. Foi extenuante como quando li o Grimoire.
— Então está na hora de parar um pouco. Você tem de descansar um pouco e não vou te deixar sair antes de ter certeza que está bem.
— Nina, eu preciso voltar lá…
— Agora não! Esse pessoal todo não precisa de uma “Gnoma” esgotada! — falou séria, mas Giovanna disparou a rir.
— Gnóstis!
— Dane-se! Tem de se cuidar. — Resmungou e ficaram em silêncio por alguns minutos. Gio sentou-se e recolocou seus óculos ainda massageando o pescoço com uma das mãos.
— Aconteceram muitas coisas. Nem sei como explicar. Tudo está ficando cada vez mais complicado e não quero te envolver nisso.
— Olha, essa história é louca desde o começo. Eu não consigo ver esse pessoal então eles podiam aparecer por aqui e dar algumas satisfações. E aí, descobriu algo sobre esse negócio que persegue os necromons?
— Não muito, mas com certeza é algo forte o bastante para um eco dele ficar guardado dentro de um Sumidouro antigo. Era um som de arrepiar. — Começou a mexer na bolsa e descobriu o celular descarregado. — Preciso carregar isso.
— Precisa se recarregar também. Vou prepara algo para comermos. Venha.
Concordou com um meneio leve de cabeça e depois de conectar o celular no carregador desceu seguindo Nina. Era bom ter um tempo seu. Agora sabia que seria mais complicado vasculhar os livros na Fortaleza dos Esquecidos, pois o guardião estaria esperando por ela e ainda precisava encontrar Elzevir. Largou-se na cadeira e respirou fundo. Desejou que Elzevir estivesse ali. Onde estaria Nômade agora? Socorrendo necromons?
— Do jeito que está tudo estranho vou começar a achar que os objetos dessa casa podem ser biblios também. — Nina puxou uma travessa da geladeira e colocou-a no micro-ondas.
— Vamos comer tudo isso logo cedo? — Parecia absurdo até seu estômago soltar um som profundo e Nina a fitar com um olhar irônico.
— Isso aí é o som que saiu do tal livro ou são suas tripas pedindo comida, hein?
— Ok. Estou com fome. — Foi buscar os pratos e logo estavam sentadas ao redor de uma travessa cheirosa de carne com legumes e batatas.
Nina ainda servia o suco quanto Gio deu a primeira garfada e falou de boca cheia.
— Desculpe, acho que estou faminta.
— Sim, sim. Coma tudo! Coma mais. - Ela riu e serviu-se de um pouco de batatas. — Fiz a janta, mas acabei que nem comi também, te esperando.
—Desculpe. Você não devia estar envolvida nisso.
— Como assim? Quero fatos e fofocas. Cadê o cara charmoso de cartola? — Deu uma garfada numa cenoura.
— Poliphilo… — Parou de mastigar tentando imaginar como dizer aquilo. — … eu descobri que ele está com problemas.
— De que tipo?
— Do tipo ser acusado de ter cometido um crime? — falou quase num tom de sugestão. Nina largou o garfo e bebeu um gole de suco.
— Ele cometeu um crime?
— Não acredito, mas ainda não sei qual crime.
— Deus, que enredo horrível. Alguém aí nesse lugar pode explicar essa palhaçada? — falou para o alto como se pedisse ajuda de roteiristas imaginários.
— Por isso tenho de ver Elzevir — explicou sem parar de mastigar.
— Você não tinha ido fazer isso?
— Fui, mas quando pensei em Elzevir fui para na Fortaleza dos Esquecidos porque ele tinha ido lá. Aí peguei um livro Sumidouro e uma menina pálida me viu e chamou o guardião. — Movia o garfo numa linha imaginária de ação — Então eu encontrei Poliphilo que me mandou de volta para o Domo e aí descobri que acham que Poliphilo é um criminoso. Voltei pra cá e fui ler o livro e… — Parou ao ver a irmã fazer uma cara que conhecia e significava “Isso está muito louco. Pare!” — Eu sei. É muita coisa acontecendo.
— Vamos tentar manter um diálogo saudável, sim? O que tinha dentro do livro?
— Esperança. — Parou de comer e Nina suspirou.
— Esse é o tal do Gnósis interno, certo? — A outra concordou com a cabeça — Então esses livros têm coisas boas dentro, no fim. Eles têm esperança em algo ou em alguém…
— É… - Gio ajeitou-se na cadeira. Nina conseguia sintetizar as coisas de maneira estranha algumas vezes, mas na maior parte do tempo era prática.
— Você falou que o Gnóstis é uma lenda entre os biblios, então deve ser entre os necromons. O que os biblios sabem desse Vazio aí?
— É o que eu preciso saber além de descobrir algo sobre o que está acontecendo com Poliphilo. Ele parecia fraco quando o vi. No fim parece que o Grimoire de Nabu daria uma grande resposta a tudo.
— Acha mesmo?
— Não tenho a mínima ideia. Mas preciso de algumas respostas e… o que foi? — Notou o olhar surpreso da irmã observando algo atrás dela. Ouviu um leve estalar metálico e virou-se para descobrir um inusitado visitante na cozinha.
Era pequeno, todo feito em ouro e prata e movia-se com a graça de um autômato, mas emanava uma vivacidade que não podia deixar de denunciar sua origem. O curioso biblios tinha o formato de uma coruja mecânica e ali, no chão, poderia passar como um bibelô caro, mas com certeza existia e era um ser de Imaginarium. O mais incrível é que Nina o estava vendo!
— Saudações. Sou Grisial. Vim a pedido de Elzevir — anunciou com uma voz metálica e harmoniosa, abrindo as asas num gesto de apresentação.
— Que fofo. — Nina deixou escapar.
— Saudações, Grisial. Sou a Gnóstis. — Gio se apressou ao levantar-se antes que a irmã tentasse pegá-lo nas mãos como um pet. Então aquele era Grisial, o Senhor da Fortaleza dos Enigmas? — Está é minha irmã, Gianina.
— Pode me chamar de Nina — informou sorrindo — Quer algo pra comer? O que corujas mecânicas comem? — cochichou para a irmã. Gio fez uma negativa com as mãos para esquecer aquilo.
— Elzevir me falou de você e eu vim vê-la — declarou movendo-se com a desenvoltura de um pássaro, voando até pousar na bancada da cozinha.Seus olhos pareciam dois rubis fulgurantes com um contorno dourado que girava de forma precisa como um obturador faria.
— Acho que seria bom conversarmos lá em cima — sugeriu Gio, voltando-se para a irmã que movia a cabeça numa concordância silenciosa sem tirar os olhos do inusitado ser diante delas.
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Num minuto todos estavam sentados no quarto de Gio enquanto a pequena coruja olhava fixamente para ela.
— Impressionante. Sua Gnósis está em expansão. No ritmo que está logo não será mais possível confundi-la com um biblios — comentou enquanto esquadrinhava sua pessoa.
— Isso é bom ou ruim?
— Isso é um enigma. — Sacudiu as asas fazendo um tinir gracioso de metal. Estava confortavelmente empoleirado no suporte oposto a cabeceira da cama, enquanto Nina se empoleirava no ombro de Gio, sentada logo atrás dela. — Entenda. Nunca houve um Gnóstis antes. Não sabemos exatamente quais suas habilidades ou limites. É um humano com uma Gnósis única. Teoricamente você poderia mudar tudo que existe em Imaginarium, mas com poderes muito maiores. Até onde Elzevir me contou você pode ler o Gnósis interno de um Grimoire e… — Parou esperando a continuação da boca da própria Gio.
— Também posso ler o interior de um Sumidouro – concluiu.
— Isso é algo impressionante. Mas só o tempo vai lhe dizer a utilidade disso. Então os Sumidouros também podem ser lidos e, mesmo após seu objetivo ter sido alcançado, ainda têm um núcleo vivo, como um Grimoire. Sabe agora qual é o objetivo?
— Eles… Nômade me falou que eles usam os livros para se protegerem… do Vazio. Sabe o que é isso? — Gio inclinou-se para frente enquanto ouvia um leve mecanismo interno vindo do curioso biblios como uma engrenagem caprichosa que movia seus pensamentos.
— Existem textos sobre Nabu e textos que ele mesmo escreveu. Poucos e raros. Poliphilo os leu todos e ficou obcecado por estas informações — explicou. — Foi dali que tirou os dados sobre a teoria de um Gnóstis e, bem, ele estava correto. Então se um Gnóstis existe o outro também é real e Poliphilo também estava correto. A Quimera é real.
— Quimera? — Gio olhou para Nina que parecia mais concentrada do que quando via um filme.
— Este é o nome que Nabu deu para o que Nômade chamou de Vazio. A Quimera é um ser feito do vazio e movida pelo medo.
— “O Medo impulsiona o Vazio e o Vazio se alimenta da Gnósis. O Vazio teme e precisa da Gnósis...” — Gio murmurou lembrando daquelas palavras. — Foi o que Nômade me falou. A Gnósis inerte nos livros e nos necromons. Grisial, você disse que Poliphilo também acreditava na Quimera. Ele a viu?
Grisial girou seus pequenos olhos brilhantes de rubi e eles se estreitaram focando nos olhos de Gio.
— Gnóstis, o que vem a seguir é escolha sua. Está disposta a continuar? Sabe que Poliphilo está sendo caçado como um criminoso? Depois de lhe narrar todos os fatos, ainda estará aqui para os necromons e os biblios?
Gio silenciou-se um minuto e observou a pequena coruja metálica com seu rubro olhar. Ali estava mais um ser muito mais antigo que ela, mas agora conseguia ver as ondas de sua Gnósis descolando-se de sua pequena forma como o vapor de água se descolaria de uma superfície quente.
— Todos vocês têm formas muito mais poderosas e diferentes do que posso imaginar. Esta não é sua única forma. Posso perceber isso, assim como posso perceber as intenções de Poliphilo e o grande sofrimento de Nômade. — Virou-se e apertou a mão de Nina, num gesto de certeza que foi retribuído como um apoio silencioso. — Eu quero fazer isso. Quero ajudá-los.
— Está tudo bem. Sei que você consegue. — Nina concordou.
— Terá de usar este poder diante do Conselho. Eu estou aqui para prepará-la para o que vem. — Grisial voou, pousando perto da entrada da varanda. Num segundo seu corpo começou a desmontar e surgiram peças e mais peças à medida que a estrutura ia aumentando de tamanho e um corpo metálico que lembrava uma armadura surgiu coroado por uma bela cabeça metálica de coruja numa escala proporcional ao novo porte. O grande humanoide em ouro e prata inclinou-se no ambiente não tão adequado para ele.
— Caramba. Isso foi muito legal! — Nina deixou escapar e Gio sorriu.
— Ele é o senhor de uma fortaleza em Imaginarium. — explicou e pegou seu celular, colocando em sua bolsa.
— Você não ficará sem notícias dela. Um de nós virá para lhe contar o que está acontecendo — informou à irmã que ainda o olhava boquiaberta. — Ela estará segura. Tem a minha palavra.
— Vou acreditar nisso. — Olhou para Gio e a abraçou. — Se cuide. Não ultrapasse seus limites e saiba parar. É como quando monta um livro, lembra?
— Respeite cada etapa. — Gio sorriu e concordou com um menear de cabeça. — Vou lembrar disso.
Aproximou-se de Grisial e deu uma última olhada na irmã antes de sumir num poderoso vértice criado por ele. Nina ficou olhando o espaço vazio e depois voltou para a cozinha, mas não sem antes dar uma olhadela na biblioteca e ver se o Shiva Dançante ainda estava lá.
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