Quando seus olhos se acostumaram com o ambiente Gio ficou um tanto atordoada. A Fortaleza dos Enigmas era totalmente diferente do Domo e da Fortaleza dos Esquecidos. Era imensa, claro, mas seu interior era extremamente espaçoso e haviam paredes e mais paredes recobertas de estantes em vários níveis até o altíssimo teto. Ali escadas deslizavam sozinhas entre os andares das estantes como que vindo em socorro de alguém que precisasse alcançar algum exemplar. A luminosidade vinha do exterior de grandes painéis horizontais que pareciam percorrer todo comprimento do ambiente, mas o que mais chamou atenção dela foram as enormes esferas flutuantes de energia esverdeada que pairavam no ar há alguns metros do piso. Viu duas nos extremos opostos. Ambas eram cercadas por duplos aros dourados com entalhes em toda sua estrutura, que se cruzavam sem nunca se tocar e pareciam estar sempre em movimento. Na esfera haviam pontos luminosos que ocasionalmente surgiam e desapareciam sem parar.
— São enigmas, charadas ou criptografias — explicou Grisial caminhando ao seu lado. — A cada pensamento que os cria surge um ponto brilhante na esfera que simula a superfície de seu mundo.
— Nossa. — Olhou mais de perto e pode notar relevos suaves na esfera que agora parecia ser composta de alguma coisa um tanto cristalina. Logo pode divisar os continentes e entendeu a funcionalidade daquilo naquela fortaleza.
— Eu monitoro as rotas criativas desses pensamentos, que podem se tornar registro de alguma forma, e seu potencial Gnósis. Outros me auxiliam nesta tarefa, mas no começo não era assim. Éramos poucos e muitos desapareciam sem deixar vestígios. Foi um longo caminho até compreendermos nosso próprio modo de existir. Venha. — Fez um gesto e caminhou adentrando pelos caminhos entre os paredões de estantes com suas escadas que deslizavam de um lado para o outro como o mecanismo interno de um relógio. Tudo ali tinha um toque metalizado e ela podia compreender devido à natureza de seu criador.
Enquanto caminhavam Gio observava os detalhes daquele incrível ser. Apesar do corpo parecer coberto com uma armadura cheia de padrões delicados em relevo, aquilo era na verdade sua própria pele. Notou detalhes como as penugens de metal em seus pulsos e a bela e incrível plumagem revestindo sua cabeça, também feita em prata e ouro. Lembrou-se dos rebuscados livros do século IX com capas em ouro e engastes de pedras preciosas. Seus olhos de rubi também vinham de uma daquelas raridades que agora davam forma a partes daquele incrível ser. As poderosas mãos que tinham a forma de potentes garras fizeram um gesto no ar abrindo uma imensa porta dupla de metal que se apresentou diante deles e a qual Gio teve a impressão de que poderia deter uma explosão de tão grande e larga, no entanto deslizou levemente para dar passagem aos dois.
Ali, um mundo de engenhos mecânicos se movia orientados por pequenos autômatos que vistoriaram livros e documentos antigos. Era como um grande arquivo com obras e mais obras arquivadas em gavetas próprias que deslizavam para o interior das paredes e desapareciam deixando apenas um pequeno selo metálico pra localizar sua posição. Os graciosos assistentes trabalhavam diligentemente olhando cada exemplar e verificando seu estado.
— Eles são meu Grimoire — explicou enquanto Gio o fitava surpresa — Já deve ter percebido que podemos mudar a forma de nossos Grimoires. Todos eles são um só e monitoram as obras, textos e tudo que aqui repousa. — Fez um gesto e os pequenos pararam tudo e correram alinhando-se perfeitamente para o último dar um passo à frente e mesclar-se ao dianteiro e assim por diante, até apenas restar um que se desmontou em centenas de pequenas peças no ar e remontou-se como um grande Grimoire de metal com um belo reflexo em tons azuis e verdes fluorescentes.
Gio ficou encantada com aquele incrível quebra-cabeças. Era a estrutura simples de um jogo de inteligência.
O Grimoire pousou tranquilamente sobre as garras douradas e permaneceu refletindo seu belo reflexo neon.
— Elzevir me falou muitas coisas sobre o que você pode fazer e me pergunto o quanto mais virá. Consegue perceber minha composição?
Gio o fitou surpresa pois nos últimos minutos estava notando que sua mente involuntariamente associava características físicas a estilos ou livros que já ouvira falar. Tinha certeza que parte de sua estrutura vinha do Livro do Conhecimento[1] entre centenas de textos antigos e tratados, alguns imemoriais que não conseguia identificar por motivos de antiguidade, mas que obviamente ainda existiam. Imaginou que se focasse naquilo poderia identificá-los com mais precisão, mesmo nunca tendo os visto.
— Eu… acho que percebo algumas coisas… — iniciou por explicar, mas foi interrompida por um gesto dele.
— Basta saber isso. Deve se lembrar que não pode nunca nos dizer como somos feitos. Isso poderia fazer com que um biblios ficasse obcecado em encontrar sua própria estrutura.
— Não poderia salvar vidas? — Lembrou-se que a falta de um elemento poderia alterar o corpo de um biblios ou até matá-lo.
— Resgatar um livro ou um texto em risco é um dever, mas manipular propositalmente Vida e Morte é um passo a mais. Ambas são imprevisíveis para um humano e também para nós. Protegemos os livros para manter nossa existência, mas temos plena ciência de que saber-se totalmente imortal, ter essa certeza, pode ser algo que nem todos conseguiriam lidar. Nem sempre coisas boas advém de um poder assim. A temporalidade das coisas tem sua beleza e necessidade.
“Você é uma Gnóstis e suas habilidades exigem tomadas de decisão muito mais sábias. Tenho noção do quanto é jovem comparada com um de nós, mas também quanto seu poder pode ser imensamente maior do que tudo que somos capazes. Um Gnóstis é um enigma e pode atrair encantamento como medo para nós. Por isso perguntei se estava pronta. Nesse minuto o Guardião está buscando reunir o Conselho para expor o que viu e não tardará para ter de se mostrar diante deles. Lembre-se que a ideia de um humano que tem um poder ilimitado sobre Imaginarium, pode ser preocupante.”
Gio baixou o rosto pensativamente. Aquilo era muito grande e agora entendia as dúvidas de Grisial. Elzevir fora sábio ao direcioná-la ao mestre daquela fortaleza. Ele parecia disposto a prepará-la para o que viria, então deveria dizer-lhe tudo que sabia.
— Eu começo a entender a complexidade disso. Nos últimos tempos recebi informações na mesma velocidade que me percebi capaz de fazer estas coisas, mas minhas informações não estão completas. Posso lhe dizer que falei com um necromon, mas não sei dimensionar o perigo que enfrentam com esta Quimera. Sei que Poliphilo está sendo caçado, mas não sei o porquê e também percebo que algo ocorre com ele. Preciso de mais peças para este quebra-cabeças.
— Então veio ao lugar certo. — Os olhos de Grisial giraram fazendo um barulho gracioso e ela imaginou que aquilo era o modo como ele sorria. — Vamos ver os textos de Nabu.
— Estão aqui? — Ficou surpresa.
— Que lugar melhor para guardar textos enigmáticos que aqui? — Moveu-se indo para outra ponta da sala enquanto seu Grimoire voltava a forma de pequenos autômatos que retornaram para seus monitoramentos. Gio o seguiu e deram em outra passagem que parecia a entrada circular de um grande cofre, mas ao se abrir revelou uma antiga sala com uma imensa sequência de pesadas mesas de metal polido e brilhante. Ao contrário do Domo ali não havia muita preocupação com a estética decorativa do ambiente. Tudo era muito tecnológico e minimalista, mas notou uma curiosa cadeira totalmente fora do contexto visual do ambiente, larga e forrada com travesseirões coloridos e sedosos que mais lembravam um trono indiano. Olhou para Grisial que deu de ombros.
— Elzevir me disse que faria o ambiente ficar mais aconchegante. Introduzi para seu uso — confessou.
— Ficou mais aconchegante. Obrigada. — Sorriu e o acompanhou enquanto ficava diante das mesas. Sobre elas havia os mesmos selos de metal em alto-relevo que vira nas paredes do recinto anterior. Ao tocá-los, desapareceram, sendo absorvidos na superfície, revelando um novo plano, não mais de metal, e sim de vidro, deixando à mostra o interior das mesas como se fossem expositores que emitiam uma luminosidade interna própria. Lá dentro ela pode ver muitos pergaminhos alinhados que pareciam feitos de algum material, mas não eram iguais a nada do que vira em seus estudos. Com certeza Nabu criara seu próprio material de escrita antes de muitas pessoas pensarem no que viria tempos depois. Sorriu um pouco ao pensar maravilhada que Nabu talvez tivesse inspirado os humanos a usar outros materiais para escrever ao invés da pedra, o barro ou o couro animal. Aquele estranho papel tinha um tom alvo, mas possuía um belo reflexo cuja tonalidade se alterava conforme a luz incidia sobre ele.
— Não há nada escri… — parou a frase ao perceber que letras começaram a surgir na superfície deixando textos a vista em todas elas. Estavam escritos em sua língua! Olhou surpresa para Grisial que a observava na ponta da última mesa, ereto como uma bela estátua antiga.
— Nabu fez textos pra serem lidos por todos. Ele pensou numa estrutura que pudesse se adaptar a quem a via. Quer tocá-los?
— Não me atreveria. — Recuou um passo timidamente.
— Não é um material feito para ser perecível. Você pode tocá-lo e talvez seja a que mais deva. Se deseja ler o Grimoire de Nabu deve estar pronta para a experiência. — Com um gesto delicado fez a superfície vítrea desaparecer e acenou com a cabeça num sinal positivo.
Gio sentiu as mãos gelarem. Aproximou-se devagar olhando para o belo pergaminho e pode observar a delicada caligrafia que surgia ali apenas para que pudesse saber o que aquela voz do passado tinha para lhe dizer. Cuidadosamente pegou um dos pergaminhos e percebeu que era extremamente forte, quase como se tivesse acabado de ser feito. Claro, ali era Imaginarium e o que era criado ali não sofria a passagem do tempo.
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“Já haviam muitos de nós antes da humanidade dominar a prensa. E muitos de nós já havíamos partido também...”
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Leu aquela frase e sentiu uma excitação secreta por poder acessar algo tão antigo e raro. Aquilo era único no mundo. Realmente único. Continuou passando os olhos e parando em trechos que pareciam chamá-la à leitura. Era como se o texto tivesse vida própria e discretamente se destacasse no papel sabendo o que ela buscava saber.
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“Biblios. Não tínhamos esse nome, no início. Não havia um nome, na verdade. Éramos apenas ‘aqueles que caminhavam entre as camadas da realidade’. Por agora já se usa o termo biblios e também conhecemos a existência dos necromons, mas se passaram muitos anos até percebermos a conexão entre nós e os textos ou suas estruturas. Busquei aperfeiçoar estes conhecimentos assim que pude detectar que a destruição de um ou muitos destes estava diretamente ligada a morte de um de nós.”
“Com o passar do tempo pudemos entender nossa natureza e nos fixar em um lugar só nosso. 'Imaginarium' é o nosso mundo. Iniciei por registrar nossas próprias existências, assim como os humanos faziam com as suas. Percebo a importância de termos uma história, uma identidade que nos faça saber que somos mais do que sombras do mundo.”
“Neste ponto, enquanto alguns de nós nos percebemos capazes de inspirar os humanos para aperfeiçoar suas técnicas, outros iniciaram por proteger obras que poderiam ser destruídas, com o intuito de poder preservar não apenas aquilo que seria a alma mater de todos nós, como possivelmente perpetuar nossas chances de existir.”
“No início os que coletavam e protegiam documentos e todo tipo de texto eram chamados de 'Coletores'. Havia muitos 'Coletores' por aqueles tempos, mas ainda não havia as 'Fortalezas'. Elas se iniciaram recentemente e acredito que se tornem mais complexas e grandiosas à medida que a Humanidade crie mais e mais obras.”
“Foi nesse período que me deparei com o testemunho de um antigo 'Coletor' num estado muito peculiar.”
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Quase parou de respirar ao iniciar a leitura daquele trecho.
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“Este 'Coletor' andara por regiões como 'Asia Minor'[2], que eu já tivera a chance de conhecer como a terra dos 'Hatti'[3], e havia buscado por materiais de registro que possuíssem a 'Gnósis' para serem recolhidos. Eu o encontrei em uma antiga construção que ele havia usado para guardar pergaminhos, estes resgatados de túmulos saqueados que estavam prestes a serem destruídos pelas intempéries locais. Seu nome era Ugatir. Não compreendi o porquê de manter os livros naquele local até ver sua aparência e ouvir seu testemunho. Se algum dia houvera cores em sua pele, elas haviam se esvaído há muito e tampouco havia brilho em seus olhos, agora mortiços como uma página vazia.”
“Ugatir me contara que estava fraco demais para poder levar aqueles escritos para 'Imaginarium' e eu lhe garanti que chegariam a salvo para um dos Coletores. O tempo todo ele falava da importância de tirar aqueles textos de lá e de como deveriam ficar protegidos da 'Quimera'. E eu lhe perguntei: ‘O que é a 'Quimera'?’ Houve um silêncio, então ele definiu numa única palavra: ‘Medo.’”
“Os olhos que não tinham mais cor agora eram capazes de ver um ser que nenhum de nós era capaz de enxergar. Não podemos ver os necromons, contudo sabemos de sua existência pelos estranhos ‘Códices Mortos’ que achamos desde que esse formato começou a ser criado pelos homens e que nós descobrimos também sermos capazes de fazer, com nossa própria 'Gnósis', nomeados de 'Grimoires'. Já este ser era completamente invisível para nós.”
“Segundo Ugatir, a 'Quimera' só podia ser vista pelos necromons e pelos que alegavam terem sido suas vítimas de alguma forma. Afirmava que alguma peça de sua composição tinha sido absorvida por essa 'Quimera' e agora ele a podia ver também.”
“Pacientemente ouvi suas narrativas e cuidei dele, enquanto levava a soma imensa de seu cuidadoso resgate para 'Imaginarium'. Eu o visitava e tentava convencê-lo a ir comigo, mas era tomado de pânico alegando que temia a possibilidade de o monstro segui-lo para nosso mundo. Não podendo ver o que era, imaginei que apenas alguém com um poder muito maior que o nosso pudesse enxergar em todas as camadas e iniciei por debruçar-me sobre este enigma. Haverá alguém com um 'Gnósis' tão poderoso que possa perambular por todas as camadas e intervir em situações como esta? Poderia haver um ser, biblios ou humano capaz de ter tal habilidade. Seria um detentor de um 'Gnósis' intenso a ponto de quebrar as barreiras entre a realidade dos homens e as outras camadas e, desse modo, circular livremente entre todos estes mundos com poder para nos comunicarmos? Eu o chamaria de 'Gnóstis' então.”
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Gio parou um segundo e fechou os olhos enquanto era tomada por uma emoção muito forte. Seu coração parecia ter disparado com aquelas palavras. Era dela que aquele antigo ser falava? Seria a confirmação das suspeitas e sonhos de Nabu? Passou os dedos pelo texto e continuou a ler.
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“Em determinado ponto Ugatir já não era mais capaz de falar de forma lúcida. Sua mente vagava entre descrições de lugares vistos e momentos de pânico onde, ansiosamente, mencionava o mostro que o perseguia em seus pensamentos. Sua 'Quimera' era um monstro ora sem forma, ora um amontado de corpos humanos despedaçados, incapaz de falar, apenas de gritar como fariam as 'Harpiae'[4] que perambulam pelas lendas dos homens. De todo modo era impossível para mim atestar onde terminavam os fatos e começavam as alucinações. Foi dessa maneira que testemunhei as últimas horas de existência de Ugatir que desapareceu em meus braços numa tarde silenciosa, tendo como sepulcro o mesmo lugar onde guardara os preciosos pergaminhos que protegera com tanto zelo. De toda forma aquilo que chamava de 'Quimera' não chegou até nós.”
“Decidi buscar por mais informações e, levando meu testemunho até outros 'Coletores' descobri que um ou outro já haviam testemunhado biblios em condições assim; a maioria já se encontrava num estágio final, mas em comum havia a descrição de um ser que possuía em seu interior algum elemento que fazia parte da composição central de sua vítima. Após ouvir suas narrativas, compreendi que poderia haver um ser que, de alguma forma, absorvia textos ou seus equivalentes e isso era fatal para aqueles cujo elemento era central em sua existência. Contudo, com o passar dos anos, os conflitos entre os homens e as catástrofes naturais com consequentes destruições de seus textos também nos afetariam, fazendo com que os poucos que tinham testemunhado tais fatos também desaparecessem, colocando em risco muito desta informação, que não seria mais conhecida ou lembrada pelos que surgiram depois. Estes fatos tornaram este registro escrito de vital importância.”
“Em minha busca por possíveis respostas, comecei a procurar por lugares onde outras vítimas pudessem se ocultar, como Ugatir havia feito, tentando encontrar um lugar seguro. Passei cada vez mais tempo no mundo dos humanos me concentrando em vestígios que me ajudassem e assim fui aprofundando minhas teorias e coletando dados sobre os necromons, já que não me passara despercebido a afirmação de Ugatir de que eles também eram capazes de ver a 'Quimera'. Como poderia saber disso? Havia conseguido se comunicar com eles? Os ‘Códices Mortos’ surgiam aleatoriamente em lugares onde havia materiais abandonados que invariavelmente eram de nosso interesse. A 'Quimera' também andaria por lá? Estes livros não parecem emanar nenhuma 'Gnósis', como cascas vazias. O que significa isso?”
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Gio surpreendeu-se com o salto abrupto que o texto deu a partir daquele ponto.
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“Há muita agitação agora. As 'Fortalezas' passaram por um processo de reorganização e os antigos 'Coletores' deram lugar aos jovens que se organizam para proteger os livros e todo tipo de registro com mais vigor devido a ‘Batalha dos Grimoires’ do qual já fiz o relato separadamente deste registro. Ainda há confusão e desordem e agora busca-se por biblios que possam ocupar um cargo de vigília para proteger os preceitos que sempre nos motivaram. Fala-se em criar um Conselho e devemos nos organizar depressa localizando os que possuem os 'Gnósis' mais poderosos e adequados para que nos auxiliem nessas tarefas. Em meio a esse novo grande movimento tive de me abster de minha busca e muito tempo se passou. Agora só este registro contém os testemunhos aos quais me referi e muitos outros biblios começam a surgir sem conhecer o passado que testemunhei.”
“Identifiquei um humano que poderia em potencial ser meu 'Gnóstis' teórico, mas ele sucumbiu entre os conflitos humanos e minha busca recomeça. Seus descendentes não parecem possuir as mesmas qualidades, de forma que não poderia garantir a transmissão de tal habilidade dentro de sua linhagem. Acredito ser algo mais ligado aos pensamentos criativos das pessoas. Observo os artesãos com cuidado, mas a cada dia surgem mais e mais. Isso me alegra, contudo dificulta a possível detecção. Contudo estou mais feliz em poder registrar que, pela primeira vez, consegui detectar um necromon. Este me parece ser tão antigo como eu. Posso dizer que somos sobreviventes, gerados pelas criações humanas e sempre possíveis vítimas de suas ambições e medos. Ele se autodenomina Nômade.”
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Gio parou a leitura por um minuto reconhecendo as situações e personagens daquilo que havia lido. Já notara que os Alfarrabistas ainda não tinham esse nome, sendo chamados de Coletores e possivelmente com atribuições um pouco diferentes do que ela conhecera. No início tudo parecia mais simples e não tão organizado, mas à medida que as civilizações se tornavam mais complexas, eles se viam obrigados a reorganizar suas estruturas também. Em determinado ponto as situações que exigiram mudanças começaram a ocorrer dentro do universo de Imaginarium e já não apenas vindas da Humanidade. Então o Conselho e o futuro Guardião surgiriam por causa da “Batalha dos Grimoires” e tal período gerou a reorganização das Fortalezas. Poliphilo havia falado sobre Grimoires danificados. Isso poderia ser explicado por estas batalhas? A teoria do Gnósis parecia estar certa a ponto de Nabu conseguir encontrar um possível candidato. Agora Nômade era uma nova personagem sendo inserida na trama, mas como Nabu conseguiu vê-lo? Seus olhos percorreram o texto em busca de respostas.
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“Bibliotecas humanas foram constantemente erguidas, saqueadas, transferidas, destruídas e reerguidas pelos próprios homens. A cada labareda que subia aos céus iluminando a escuridão noturna com sua fúria, um mundo de escuridão de conhecimento se abria nas suas mentes. Para cada livro queimado, uma luz se apagava e um temor se fortificava. Em alguns momentos era aterrador testemunhar tais destruições sem nem sempre poder resgatar suas preciosas vítimas, apenas tendo de assistir ao que poderia ser o fim não apenas de um conhecimento único, mas a existência de um ou muitos como nós. Foi numa noite assim, iluminada pelo medo, que vi Nômade pela primeira vez, mas não como veria qualquer um de nós ou um humano; vi apenas sua sombra se movendo por trás das chamas, refletida nas paredes de uma das muitas construções relevantes que abrigavam livros em 'Eskendereyya'[5]. Tentava resgatar alguns códices quando percebi um rolo próximo de mim, que não estivera lá momentos antes. Ao segurá-lo, surpreendi-me ao perceber outro, muitos passos à frente e os colhi depressa para descobrir um caminho ainda não tomado pelas chamas que conduzia a uma câmara com um depósito de vários rolos de papiros. O fogo era tão poderoso que iluminava toda a entrada do local. A temperatura subia depressa e movi-me rapidamente para retirar tantos quanto podia a fim de enviá-los até 'Imaginarium'. Foi quando testemunhei algo que me impressionou; a grande sombra de um ser se movia pelas paredes e derrubava pergaminhos escondidos, deixando-os a mostra para que fossem vistos. Observei aquilo por alguns segundos e curiosamente notei dois rolos que chegaram perto de mim e eram iguais aos que pegara antes, mas qual não foi meu espanto ao notar que não eram cópias, mas os próprios que sumiram de minha pilha e agora estavam novamente aos meus pés. ‘Me ajude a pegá-los’, disse para a sombra que apenas se empertigou e depois de alguns segundos falou num tom lamentoso, ‘Não tenho esse poder, só posso mostrá-los a ti. O que lhe enviei voltou, agora os mostro para que os resgate’, explicou e a grande sombra continuou a revelar nichos. ‘Você é um biblios?’, questionei ao que me respondeu ‘Eu sou Nômade, o senhor daqueles que vocês chamam de necromons. Sou o 'Senhor dos Esquecidos'’”
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Então era dali que Poliphilo havia tirado o nome de sua fortaleza. Ele dera o nome pelo qual os próprios necromons costumavam se identificar, por isso não era um nome estranho para Nômade, quando ambos conversaram.
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“Vozes e gritos distantes se misturavam ao som furioso das chamas engolindo tudo ao seu redor e logo a temperatura estaria tão alta que qualquer coisa que fosse combustível iniciaria por incendiar-se. Graças à ajuda daquele necromon eu conseguira retirar todos os pergaminhos e enviá-los para 'Imaginarium' usando minha 'Gnósis'. Salvos para os biblios e perdidos para os humanos. Em determinado ponto não podia mais distinguir a sombra e ficara invisível para mim novamente, pois estávamos quase mergulhados no fogo. Contudo, de algum modo pude continuar a ouvir sua voz. Naquela noite vasculhamos os locais destruídos até o amanhecer em busca de materiais para resgatar e foi assim que o conheci. Não sei explicar como pude ouvir sua voz, mas travamos uma conversa madrugada adentro onde aprendemos muito.”
“Eu lhe falei de 'Imaginarium' e ele me falou de sua gente e também da 'Quimera'. Eles realmente a viam assim como os biblios que tinham sido vitimados por elas. Observamos nossas 'Gnósis' e compreendi que necromons não retinham nada consigo, por isso eles não resgatavam livros, mas tentavam deslocá-los temporariamente, como fizera com os rolos para chamar minha atenção. Tentei levá-lo para 'Imaginarium', mas ouvi sua voz por poucos segundos ali e, antes não o tivesse feito, pois quando retornei onde estivéramos não o ouvi mais. Nos dias seguintes tentei encontrar meios de me comunicar e procurei lugares onde ele me explicou que os necromons se refugiavam. Deixei mensagens na esperança de que fossem pegas e realmente sumiram, voltando poucas horas depois. Nos comunicamos dessa forma durante um dia, sempre fazendo perguntas e respondendo o que podíamos. Explicou-me que não pudera ficar na camada de 'Imaginarium', por isso fora lançado de volta e o contato que fizemos se rompera. Ainda não descobri o que foi capaz de me fazer ver sua sombra naquela noite ou ouvir sua voz, mas tento buscar respostas. Ouvi tantas coisas que se faz necessário escrever um registro a parte sobre os necromons.”
“Procurei por outros lugares até encontrar um novo ponto de contato onde deixei mensagens. Tenho esperanças que Nômade possa responder. Nesse ínterim minhas buscas por respostas ao que aconteceu naquela noite eventualmente poderão ser sanadas e estou pronto a fazer um experimento onde creio que tenha resultados. Decerto que a resposta esteja nas chamas.”
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Nesse ponto o texto encerrou-se e Gio manteve o olhar fixo por alguns segundos, numa esperança íntima de que algo mais surgisse para ser lido, mas o resto do pergaminho permaneceu mudo. Não tinha se dado conta, mas agora estava sentada na poltrona que fora colocada para ela com o texto em seu colo. De tão absorta não percebera o momento em que se colocara ali, como se tivesse ficado indiferente a qualquer outra coisa enquanto lia o testemunho daquele biblios. Por momentos sentiu-se transportada no tempo e quase podia ver, através de flashes, as cenas descritas, como se um filme passasse dentro de sua mente. Não era como imaginar algo: ela realmente conseguia ter a experiência visual dos fatos narrados como na memória de um sonho. Agora, fora trazida à realidade com o término do texto e seus olhos se ergueram na direção de Grisial que a observava impassível.
— Onde está o resto da narrativa? — perguntou enquanto lançava os olhos para os outros rolos dentro dos painéis.
— Não há continuação. Os outros textos falam dos próprios biblios e toda nossa estrutura — explicou. — Esse pergaminho é o único que menciona a Quimera e os necromons. A parte final do texto foi o último registro de Nabu antes de desaparecer. Note que há uma mudança abrupta de tom, por causa das batalhas que foram registradas por ele, nesse meio tempo. Aparentemente ele não conseguiu preparar os registros específicos sobre os necromons, como desejava. Desse ponto em diante tudo é suposição para nós.
— Ele desapareceu depois deste registro? Ele...morreu? — hesitou um momento antes de usar aquele termo porque talvez ela mesma desejasse que Nabu ainda estivesse em algum lugar. Apenas ler suas palavras criou um elo com aquele ser que vivera milhares de anos atrás.
— Não sabemos, mas a maioria de nós crê que sua Gnósis se extinguiu, talvez por ter sido vítima da destruição humana ou por algum outro motivo que desconhecemos. Também não sabemos o quanto mais Nabu interagiu com Nômade depois deste registro ou se encontrou a resposta para seu contato com ele. A única coisa que encontramos com os restos de seu Gnósis foi seu cofre segredo, onde imaginamos que esteja guardado seu Grimoire. A instrução que estava nele era que apenas o mais poderoso Gnósis poderia guardá-lo, assim seu testamento foi honrado e o cofre foi passando de um Arcanus para outro.
— Quantos Arcanus o guardaram?
— Apenas dois: Oyuun, que foi a criadora da Fortaleza dos Grimoires, e Ganesha, seu sucessor atual. Deve ter em mente que os biblios mais antigos acabaram desaparecendo com o tempo e assim deveriam ser substituídos para perpetuar as fortalezas, assim como no passado existiram os Coletores. A Batalha dos Grimoires mudou muitas coisas e, em certo sentido, impulsionaram a organização de Imaginarium como a conhecemos. Por muito tempo nós que surgimos durante e após esse processo estivemos ocupados em manter o equilíbrio nesta camada e quando Nabu desapareceu não havia como parar tudo apenas para saber seu destino — explicou fazendo um gesto na direção do ambiente. — Tudo isto demanda muito esforço e grande Gnósis. Nabu permaneceu muito tempo na sua realidade fazendo buscas, inicialmente por tudo que nos compunha e depois pelos próprios necromons. Seus registros foram encontrados depois de desaparecer, dessa forma não pudemos ter certeza do que aconteceu.
— Ele era um historiador — comentou pensativa. — Ninguém mais tentou seguir seus passos?
— Outros Arcanus se prontificaram a fazer registros, mas como Nabu previu, a história da Quimera era incompleta demais e ninguém mais teve contato com testemunhas. Se só necromons a veem e não podemos ver os necromons tudo acaba caindo numa linha desconhecida. Para a maioria quase uma lenda. Um enigma.
— Assim como um Gnóstis — lembrou enquanto recolocava o pergaminho no lugar. — Mas Poliphilo acreditou no que leu aqui, talvez por sua proximidade com os Sumidouros ou por… ser uma testemunha… uma vítima — sugeriu olhando para o grande biblios que fez um silencioso gesto afirmativo com a cabeça.
— Por quanto tempo Poliphilo procurou o Gnóstis?
— Ele a procurou por quase quinhentos anos — enfatizou Grisial lembrando-a de quem era.
Sentiu um embrulho no estômago ao ter suas suspeitas confirmadas. Poliphilo estava fadado ao desaparecimento e assim como o pobre Ugatir, veria seu corpo se desvanecer lentamente em meio aos delírios finais. Pensou em tudo que ele fizera e na sua crença inabalável nas palavras de Nabu. Já tinha a percepção de que Poliphilo não era um biblios comum pela sua habilidade de encontrar e coletar os Sumidouros e agora tinha certeza de que ele não era alguém que desistiria por nada.
— Há quanto tempo… — não conseguia dizer em palavras o que imaginou. Como se chamava aquilo?
— Há aproximadamente dez anosa Quimera aparentemente capturou um dos livros vitais de sua estrutura. — Grisial parecia ler sua mente, algo que ela agradeceu no seu íntimo. Continuou — Acreditamos que foi a partir daí que todos os episódios se desenrolaram. Poliphilo viu a aparição de uma Quimera e depois ocorreu o incidente.
— Aquele pelo qual é acusado? Do que o acusam?
— De haver incendiado uma biblioteca o que, consequentemente fez desaparecer um biblios. É um delito grave para nós, deve imaginar.
— Por isso Su Won está atrás dele? Ele patrulha a Fortaleza dos Esquecidos na esperança de capturá-lo. — Agora muitas coisas faziam sentido para ela, inclusive tentarem capturá-la também; para todos os efeitos ela soaria como uma cúmplice por ocultar um criminoso.
Em nenhum momento ela conseguia crer na culpabilidade de Poliphilo e não apenas por ter visto o interior de seu Grimoire antes ou perceber sua necessidade de ajudar os necromons, mas agora, por se dar conta de todo o esforço que fez em buscá-la por todo aquele tempo e, em especial nos últimos dez anos enquanto era perseguido pelo Guardião.
— Acredita em sua inocência? — Grisial a inquiriu diretamente ao que ela respondeu sem titubear.
— Acredito que Poliphilo nunca faria algo propositalmente para destruir uma biblioteca e, consequentemente, a vida de um biblios. O que testemunhei dele me pareceu o suficiente. — Caminhou até Grisial e mostrou suas mãos. — Eu tive seu Grimoire em mãos e o li, também vi sua pele ficando transparente, como se estivesse se desvanecendo, assim como Nabu narrou sobre Ugatir. Só não sei porque não acreditam nele.
— Porque todos os elementos da narrativa de Poliphilo não podem ser comprovados. Como disse a maioria não acha que existam Quimeras. Se existiram, podem muito bem não existir mais e, não menos importante: ninguém nunca viu uma Gnóstis. — Fez um gesto indicando a saída e continuou a explicar enquanto caminhavam de volta para os salões da fortaleza. — Você é uma prova importante de que as teorias de Nabu eram reais. Deve imaginar que nem todos compartilham da ideia de existir alguém como você, por isso a obstinação de Poliphilo pode ser considerada fantasiosa. Quinhentos anos procurando por algo pode ser demais até para aquele que mais o acompanhou.
— E quem seria esse?
— Aquele que o caça: Su Won. No passado era o que mais observava os passos de Poliphilo em sua busca. Deve imaginar que depois do incidente não foi difícil atribuir seus atos a sua obstinação a ponto de pôr em risco a existência de biblios com um incêndio. Parece algo duro, mas deve se lembrar que Su Won nasceu como um protetor, então ele fará de tudo para proteger este mundo e os seus viventes. Sua natureza exige que mantenha a segurança conquistada. Uma biblioteca incendiada na sua realidade é uma quebra grave.
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Gio parou diante dos grandes painéis abertos como imensas varandas e sentiu a brisa enquanto olhava o horizonte belo e exuberante de Imaginarium. Além de todos os problemas que os necromons tinham, agora deveria somar mais esta situação aos seus desafios, mas como sua irmã lhe lembrara, um livro não era feito todo de uma vez e precisava ir por etapas.
— Tirando Ugatir nenhum outro Coletor ou Arcanus foi vítima da Quimera, até Poliphilo?
— Até onde sabemos isso é um fato. No passado outros Coletores podem ter passado por isso, mas a destruição de acervos era tão grande que não podemos ter certeza — lembrou-a — Veja, Poliphilo está resistindo a mais tempo que outros talvez tenham sobrevivido. Não sabemos o tempo que uma Quimera leva para absorver um elemento capturado. Pode ser que alguns biblios tenham morrido em semanas, outros, meses ou anos, mas Poliphilo tem um trunfo a seu favor.
— Qual?
— Salomon.
— Salomon? Como? — virou-se e o encarou com vívida curiosidade.
— Salomon tem um poder único de criar Grimoires pequenos que podem existir dentro de outros Grimoires ou até biblios com o intuito de potencializar a Gnósis existente.
— Sim. Agora me recordo que quando li o Grimoire de Poliphilo havia um pequeno Grimoire no seu interior que até me ajudou a não perder o foco… — comentou quase para si mesma. — Então esse é o poder do pequeno Salomon. Ele está ajudando a perpetuar a vida de Poliphilo?
— Sim. Sem Salomon é provável que Poliphilo já tivesse desaparecido.
— E o que o Conselho acha disso? Eles sabem sobre essa sobrevida de Poliphilo?
— Não. Na verdade, o Conselho não conhece Salomon. Ele soaria como um cúmplice de Poliphilo e não podemos nos dar ao luxo de separá-los.
— Isso eu posso entender, mas e quanto a Fortaleza dos Esquecidos? Você me disse que existem sucessores para as fortalezas. Existe um sucessor para Poliphilo?
— Poliphilo tem um tipo de habilidade rara o que faz com que sua fortaleza tenha propriedades únicas, como você mesma testemunhou. Não foi encontrado um sucessor para ele até hoje — complementou em seguida com sua própria opinião — Acredito que o sucessor natural de Poliphilo seja até Salomon, mas veja que estamos num impasse complicado porque até esse incidente nenhum Arcanus tinha sido caçado como um infrator e a sucessão tornou-se delicada já que não se encontrou um biblios com habilidades tão específicas como a de seu atual e, ainda senhor do lugar.
— Acredito então que Su Won vigie a Fortaleza na esperança de capturar Poliphilo, mas o mesmo consegue criar ambientes dentro do lugar que ninguém pode ter acesso, a menos que ele assim o deseje. — Continuou — Vi uma biblios da última vez que estive lá. Ela o auxilia nessa procura? — lembrou-se da jovem que havia visto tanto ali quanto no Domo.
— Aquela é Fades. Ela tem especial interesse na captura de Poliphilo já que o biblios que desapareceu devido ao incêndio foi sua contraparte.
— Contraparte? Como assim? — Aquele era um termo novo para Gio.
— Alguns biblios surgem juntos e naturalmente estão sempre juntos ou tem poderosos elos. Descobrimos que isso ocorre porque existem livros duplos, geralmente encadernados juntos na mesma estrutura ou em estruturas pareadas. Quando isso tornou-se uma tendência a partir de certos períodos começaram a surgir biblios com essas características.
— Como se fossem gêmeas? — sugeriu.
— Como se fossem um par, mas nem sempre são idênticas. Suas conexões podem ser fraternais em alguns casos ou amorosas em outros — explicou.
— Ah, droga. Imagino os sentimentos dela. Ela deve odiar Poliphilo — lamentou.
— Mesmo porque sua contraparte andava bastante com Poliphilo e também tinha interesse nos necromons. — Fez um gesto no ar e Gio pode ver uma imagem tridimensional se formar diante dela. Era uma biblios muito graciosa que lembrava Fades em alguns aspectos, mas tinha cabelos perolados bem mais longos que a outra e com um belo reflexo rosado. Seus olhos de um tom rosa prateado se estreitaram e inclinou-se para frente dando um sorriso e quase tocando Gio antes de desvanecer no ar. — Seu nome era Dafse.
— É um anagrama, não?
— Correto. Era assim que estavam conectadas.
Gio reteve aquela imagem delicada na memória. Dafse em muito lembrava aquela criatura diáfana que vira na fortaleza, mas Fades agora se encontrava ressentida, até ferida por sua perda. Era compreensível ela sentir-se injustiçada com o desaparecimento de Poliphilo e as palavras de Grisial a tomaram de surpresa ao se dar conta que biblios também podiam possuir elos emocionais como os humanos.
— Elas eram um par, não? Biblios podem formar casais? — perguntou surpresa com a própria timidez que sentiu em sua voz.
— Porque não poderiam? Todos os seres viventes têm direito a companhia. É uma escolha pessoal. — Grisial a fitou quando ouviu a pergunta seguinte.
— Biblios… eles já gostaram de… humanos? — perguntou num ritmo quebrado e no momento que emitiu aquela dúvida movida pela curiosidade, censurou-se intimamente por dizer algo tão fora de hora, contudo a resposta a surpreendeu enormemente.
— A maior parte dos biblios pode se relacionar de forma platônica com os humanos sem nunca se mostrarem para eles, criando um elo de amor pelas pessoas e seus sonhos, mas deve imaginar que poucos se aventurariam a ir mais adiante visto que isso implicaria em mostrar-se como realmente é. Geralmente isso poderia tornar-se trágico — ponderou. —, mas acredito que alguns biblios podem até apaixonar-se por pessoas ou pelo que elas representem a ponto de se expor. O único biblios que conheço que se expôs tanto foi Poliphilo em relação a você.
Gio quase parou de respirar ao ouvir aquilo. O sangue de seu corpo pareceu descer para os pés só para regressar como uma erupção em seu rosto.
— Não! Quer dizer… ele fez isso porque acha que sou a Gnóstis, não é? Ele deve ter se mostrado para outros possíveis Gnóstis no passado, não foi? — A sensação de afogueamento só piorava enquanto se apressava em tentar definir a situação.
— De fato. Ele sempre teve de se expor um pouco mais que o convencional e pode remediar as situações apagando sua passagem da memória de seus candidatos. Acredito que não tenha me expressado tão bem — corrigiu-se. — Quis dizer que Poliphilo é o biblios que mais se expor por amor à sua crença, não especificamente à sua pessoa, embora acredite que tenha muito zelo por você ser quem é — finalizou.
— Sim! Isso! — Apontou para ele num gesto de concordância e quando Grisial virou-se para continuar sua caminhada pode ouvir aquele minúsculo som que seus olhos emitiam e que lhe lembrava um timbre risonho. Suspirou enquanto tocava seu rosto, numa tentativa de apaziguar seu sobressalto de timidez e tinha quase certeza que o senhor da fortaleza divertiu-se com isso.
— Acredito que tenha lhe deixado mais a par dos fatos, Gnóstis. Agora pode compreender que não é tarefa tão simples de ser levada a cabo, visto que temos de inocentar Poliphilo e resolver este enigma ligado ao incidente, além de auxiliar os necromons de algum modo. Poliphilo está focado no problema dos necromons e creio que já não vê sentido em buscar sua inocência, visto que desaparecerá em algum tempo.
— Não fale assim. — Ela o interrompeu e ambos pararam diante dos portões da fortaleza que se erguiam imponentes, recobertos por centenas de engrenagens movendo-se em sincronia e destravando-se para revelar uma vasta passarela que levava até o exterior. — Eu vou encontrar um meio. Deve haver um meio de recuperar o que a Quimera pegou. Talvez eu possa…
— Restaurar? — mais uma vez a sincronia de Grisial a impressionou. — Sim, talvez você possa, mas acredito que deva compreender até melhor do que um biblios que aquilo que se restaura nunca mais é igual ao original. Nem mesmo uma Gnóstis pode voltar no tempo e existe a possibilidade de que o tempo restante não seja o bastante. Poliphilo a encontrou por um motivo e não foi para resolver suas questões pessoais. Contudo, acredito que provar sua inocência seja importante para realizar parte ou até tudo o que se propôs a fazer. Será muito mais difícil se os Arcanus acreditarem que um humano pode estar ao lado de um incendiário. Isso causaria um novo obstáculo e até uma crise, diria eu, sem precedentes.
Grisial estava certo. Agora, estando a par de todas aquelas informações percebia como a tarefa era mais delicada do que imaginou no começo. Entrar em Imaginarium, despertar para suas habilidades e simplesmente resgatar o cofre segredo de Nabu poderia implicar muito mais coisas do que apenas um simples ato de boa vontade. Era preciso trilhar a estrada certa e não poderia fazer isso apenas usando sua Gnósis. Pensou que se os biblios viam o mito da Quimera como uma lenda antiga ou os necromons como um povo impossível de contatar, talvez esse fosse o caminho que ela deveria seguir. Ela deveria fazer os biblios ouvirem o testemunho de um necromon em pessoa, mas não qualquer um e sim aquele que no passado se autodenominou o senhor deles: Nômade.
— Sou grata por sua ajuda Grisial. Sem você eu não poderia acessar os escritos de Nabu e compreender o que está acontecendo com Poliphilo. Eu sinto que ainda preciso saber sobre o incidente que se deu com ele para poder planejar meus passos com mais cuidado.
— Agradeça a Elzevir. Foi ele quem me falou de você.
— E acreditou que eu era uma Gnóstis?
— Conheço Elzevir tempo suficiente para saber que o senhor da Fortaleza do Domo não afirmaria que Poliphilo achou uma Gnóstis sem ter certeza disso, assim como nunca duvidei das intenções de Poliphilo em encontrá-la.
— Quantos mais acreditam que pode haver uma Gnóstis ou uma Quimera?
— Não são quantos, mas quem acredita é o mais importante. Lembre-se que mesmo que sejam poucos, suas opiniões podem influenciar os que estiverem em dúvida. Elzevir tem grande influência sobre os Arcanus, mas talvez também caiba a você convencer alguns deles.
— Até imagino quais… — murmurou desanimada ao pensar em Su Won.
— Tanto Poliphilo como Elzevir parecem acreditar que é bem capaz de realizar os feitos a que se propõem, então você tem meu crédito também. — Gio sorriu sentindo-se mais grata e segurou a linda garra dourada.
— Sou grata pelo crédito também. Foi incrível vir aqui. Ah, e obrigada pela poltrona. — riu um pouco e Grisial inclinou seu rosto como só uma coruja faria, num gesto curioso. — Eu acho que preciso voltar.
— Se você seguir este caminho logo estará diante da Fortaleza do Domo. Eu devo preparar seu terreno junto a um outro Arcanus que tenho certeza de que você visitará em breve.
— Ganesha… — murmurou.
Respirou fundo e virou-se para caminhar pela passarela, mas uma questão surgiu em sua mente. Olhou para Grisial uma última vez.
— Sempre acreditou?
— Talvez a pergunta correta fosse: nunca desacreditou? Entenda que, para humanos nós somos tão fantásticos que ninguém acredita em nossa existência e, por consequência, seres assim devem acreditar em tudo que é igualmente fantástico. Contudo o fantástico também pode amar o mundano. Não entenda mal àqueles que não levam a sério a Quimera ou não lembram dos necromons sempre. O invisível é sempre mais fácil de ser ignorado. Vai descobrir que trazer um ser como a Quimera para a mente dos biblios pode fazê-los despertar de um longo sono. Para mim, acreditar é mais fácil, pois minha natureza recebe bem os enigmas, mas talvez outros prefiram a segurança que o invisível traz. Talvez caiba a você lembrá-los do que há por debaixo deste véu e a nós aceitar o que está nele.
— É por isso que acredita em Poliphilo?
— Acredito por isso e por outros motivos que lhe serão explicados também, mas não por mim. Há coisas que cabe a Poliphilo lhe esclarecer. Agora deve se apressar. Com certeza Elzevir a esperava.
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[1]O Livro do Conhecimento de Dispositivos Mecânicos Engenhosos (al-Jāmiʿ bain al-ʿilm wa al-ʿamal al-nāfiʿ fīṣināʿat al-ḥiyal) de Al-Jazari, escrito em 1206.
[2] Μικρὰ Ἀσία (Mikrá Asía) ou Asia Minor, que significa "Ásia Menor". Termo usado na Antiguidade Tardia para se referir a região da Anatólia.
[3] Nome que os Hititas davam a si mesmos.
[4] Harpias, seres fabulosos da mitologia grega com diversas representações, mas a mais popular era de um ser parte pássaro, parte mulher. Enviadas por Zeus para arrebatar pessoas, objetos ou punir desagrados dos deuses, se anunciavam com gritos aterradores.
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[5] Alexandria


